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terça-feira, 26 de junho de 2012

PARAGUAI: AINDA UMA REPUBLIQUETA?


Wasmosy (esq.) e o general Lino Oviedo
Depois da queda da ditadura do general Alfredo Stroessner, em 1989, o Paraguai passou por vários momentos de crise política. Na verdade, o regime Partido/Estado criado pelos colorados a partir de 1954 nunca foi desmontado. Em 1996, o general Lino César Oviedo, comandante do Exército, tentou um golpe contra o presidente Juan Carlos Wasmosy. Foi impedido pelo MERCOSUL, Brasil à frente. Oviedo tentou se candidatar à sucessão, mas uma corte marcial criada ad hoc por Wasmosy o condenou a dez anos de prisão. Oviedo indicou então um “poste”, Raúl Cubas, que foi eleito presidente e o soltou da prisão.
José María Argaña
Em 1999, o vice de Cubas, José María Argaña – que se tornara adversário político dos oviedistas – foi assassinado a tiros (em uma série de reportagens que fiz com dois colegas da ISTOÉ no Paraguai, descobrimos que a cena do crime fora forjada e que Argaña já estava morto quando crivaram seu carro de balas). Cubas foi afastado e, com Oviedo, se exilou no Brasil. Nova tentativa de golpe ocorreu em 2000. A eleição de Fernando Lugo, em 2008, pôs fim a 60 anos de hegemonia do Partido Colorado e parecia que o país se estabilizara. Ledo engano.


Hoje o Senado aprovou o impeachment de Lugo. O desfecho dessa crise mostrará se o Paraguai deixou ou não de ser uma república de bananas.
              
Paraguai: o elo mais fraco?
por Rodrigo Vianna
Em 1917, quando a Revolução explodiu na Rússia, os marxistas encontraram uma explicação rápida para o fato de o movimento comunista não ter surgido com mais força nos países centrais do Capitalismo (como se depreendia que deveria ocorrer, pelas teorias de Marx): a terra do Czar era “o elo mais fraco da cadeia”.

Che Guevara morto por militares bolivianos em 1967
Nos anos 60, de certa forma, foi isso também o que levou Guevara a fazer guerrilha na Bolívia, em busca de outros vietnãs mundo afora. O país andino era um Estado (aparentemente) fragilizado, sem a força de uma burguesia brasileira ou argentina, sem a coesão política de Colômbia e Venezuela. Além disso, o povo boliviano tinha tradição de luta – como já se fizera notar nos anos 50 do século XX. Guevara terminou cercado e morto, porque o “frágil” Estado boliviano teve apoio dos EUA no combate ao foco guerrilheiro. Não funcionou na Bolívia a idéia do “elo mais fraco”.
Mas a direita parece ter aprendido com isso.
Frente ao movimento contínuo de governos à esquerda, eleitos nos últimos 15 anos na América do Sul, e mesmo na América Central, os setores conservadores (com apoio aparente dos seviços de inteligência dos EUA) passaram a atuar para derrubar, justamente, os “elos mais fracos”.
Zelaya, ex-presidente de Honduas 
Fizeram isso depois de perceber que atacar Chávez – como se tentou em 2002 – poderia gerar uma reação ainda mais perigosa no continente. Primeiro, atuaram em Honduras. 
, um presidente de origem conservadora, virara aliado tardio da esquerda bolivariana. Mas faltava coesão e mobilização social à base de apoio de Zelaya. A direita deu o golpe, com aparência de legalidade. O presidente foi tirado de pijama de casa, e deportado. Os EUA prontamente “reconheceram” o novo governo. E Honduras entrou depois numa espiral de violência, em que o Estado foi retomado pelas forças mais conservadoras.
Agora, o “elo mais fraco” é o Paraguai. Lugo chegou ao poder sem maioria no Congresso (alô rapaziada que torce  o nariz para as alianças de Lula e Dilma; sem aliança, Lula teria virado um Lugo em 2005), desgastou-se pessoalmente com escândalos sexuais. E a base social de seu governo – apesar de ter algum peso – parece ser a mais fraca do subcontinente, na comparação com Argentina, Venezuela, Equador, Bolívia, Brasil e Uruguai.

Há alguns anos, pessoas da minha família que moram em Assunção já haviam relatado o estranhamento geral no Paraguai com o tal EPP (uma guerrilha “misteriosa”, surgida em províncias de tradição agrária e que passou a atuar e espalhar o ‘terror” entre fazendeiros, justamente no governo Lugo). A mídia paraguaia tenta associar o EPP aos movimentos sociais históricos, que deram e dão apoio a Lugo. Cria-se assim uma gelatina confusa de “subversão” e ameaça à propriedade. Lugo seria associado a essa gelatina, essa é a base para o golpe parlamentar em curso.
Lugo é acusado – especificamente – de inação pelo confronto entre militantes sem-terra e a polícia, há poucos dias. Houve várias mortes. O confronto, registrado em imagens ricas e abundantemente distribuídas mundo afora, pode não ter sido “armado”. Não tenho provas para afirmar coisa parecida. Mas não me cheira bem. Sabemos que a CIA segue a atuar. O Wikileaks revela como opera a rede de informações (com apoio na mídia, inclusive brasileira, que tenta revereter a “onda vermelha” na América do Sul). É fato que, à direita paraguaia, interessava sobremaneira ter um ou vários cadáveres à mão – para colocar na conta de Lugo. Como se o presidente, e não a histórica concentração de terras no país vizinho, fosse o cupado pelos confrontos agrários e a instabilidade no campo.  

Fernando Lugo: ele vai resistir?
Um ex-bispo, acusado ao mesmo tempo de subversão e de traição ao princípio católico do celibato, parece ser o “elo mais fraco” perfeito para uma direita acuada na América do Sul.
O libelo acusatório contra Lugo é uma piada, parece escrito pelo professor Hariovaldo. Mas na Venezuela, em 2002, os discursos dos golpistas também pareciam uma piada. E, se não fosse a reação popular, Chávez estaria exilado ou morto.Resta saber se Lugo terá a grandeza  e a firmeza de Chávez. E mais que isso: se contará com apoio popular efetivo para reverter o golpe “hondurenho” desfechado pelo Parlamento. Apoio diplomático ele tem. A UNASUL está com Lugo. Mas Zelaya também teve todo esse apoio. E perdeu.
Do outro lado há o peso histórico da direita, que dialoga diretamente com Washington, na tentativa de iniciar a reversão da onda vermelha na América do Sul.

O Paraguai será o elo mais fraco a se romper? Ou a direita morrerá cercada no Parlamento – feito Guevara no interior boliviano? É a história que se escreverá nas ruas de Assunção e no interior do país vizinho.

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